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A morte não recomenda autópsias de carácter. Para operações do género reservou a vida tempo que sobre. E nela, os adversários e também os aliados, não deixaram nada por dizer. No momento em que se consuma o fim, respeitam-se a perda e a dor: daquele que sobe aos céus e a dos que permanecem ligados à sua figura, fazendo do seu exemplo verbo na terra.

Como cristão, democrata e não socialista, nunca vislumbrei em Mário Soares um ícone ideológico ou espiritual. Encontrei nele um estadista marcante - por razões que se descrevem umas mais subjectivas do que outras – com coragem intelectual e física indomáveis em circunstâncias decisivas na História da Liberdade. A resistência infatigável digna de respeito, a militância intemporal que permitiu arrumar na outra época o que não gostaríamos de assistir nesta, e a participação na construção da obra-prima que é a democracia pluralista, da qual somos devedores. Foi “fonte luminosa”, que na caverna escura do processo revolucionário, salvou o país da liturgia marxista-leninista que prometia uma nova ditadura ao povo. Gozasse o PS do seu entendimento e não o encontraríamos hoje ligado a uma geringonça, composta por forças sobre as quais serviu de tampão.

 

Do que disse ou fez, recordo-me de ter discordado mais vezes do que aquelas em que acolhi as suas verdades. E até no exercício do direito à crítica - fosse pelo feitio implacável e estilo bafejado pela impunidade, a memória que chega de uma descolonização selvagem, a desgovernação amiga de duas bancarrotas ou a opacidade política – sabia que era, entre outras coisas, graças à sua intervenção que podia afirmar desabridamente o que pensava. O seu trajecto está povoado de erros. Como acontece com todos os que têm a responsabilidade inalienável de decidir. Do legado resta um Portugal (europeu) melhor do que o era no século em que nasceu. Facto que só de si justifica o meu obrigado. À família enlutada, bem como a todos os seus amigos, endereço as minhas sinceras condolências.

 

* Presidente da Juventude Popular

 

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publicado às 21:20



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