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Soares foi fixe

por efepe, em 11.01.17

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Soares foi fixe. E a mais convicente prova disso foi a forma como o país se despediu da “figura mais importante da segunda metade do século XX”, como diz uma das alunas do mestrado de História da Universidade de Lisboa num dos artigos da edição de hoje. Para quem nasceu depois do 25 de Abril, para a chamada geração millennials, o exílio e a deportação são arcaísmos sem sentido, expressões distantes de um país que travou uma guerra colonial insana. Para os pais e avôs dessa geração, arrastados para essa guerra, Soares não foi, não podia e não devia ser uma figura consensual.

O país deve-lhe a coragem da luta antifascista, a consolidação democrática e o destino europeu imposto a um velho império que há séculos se encontrava à deriva e a cair de podre e de anacrónico. Para quem nasceu depois do 25 de Abril e da adesão à Comunidade Europeia, que sentido faz hoje falar em liberdade? É esse dado adquirido que leva um dos alunos citados no mesmo artigo a afirmar que, “felizmente, não ficámos órfãos. Há muitos pais da democracia”. Esta geração pode não conhecer os detalhes da chegada a Santa Apolónia, desconhecer a importância do comício da Fonte Luminosa e a ameaça da unicidade sindical ou as conspirações do ex-secretariado. Os seus pais, provavelmente, também não. O que recordam é uma campanha eleitoral, a última — a da sua maior derrota. Assim como os seus pais recordam a primeira eleição presidencial que, à segunda volta, fracturou os liceus entre quem usava o autocolante do “Soares é fixe” e o “Prá Frente Portugal” da campanha de Freitas do Amaral.

 

Mas não é por isso, por terem conhecido um Soares tardio, que as gerações mais novas não interiorizaram o que é uma democracia e os conceitos mais básicos que ela implica. O que os define não é o típico discurso salazarista do "antes é que estávamos bem", da defesa do Portugal Amordaçado que Soares combateu. Isso é atributo dos mais velhos. Se algo os define é a liberdade de expressão e de mobilidade proibida às gerações anteriores. Eles não perderam um pai porque não nasceram numa ditadura provinciana e tacanha, no respeitinho de um duce de trazer por casa. E quando olham para a nossa história sabem avaliar a importância do legado de Soares e da geração que fez o 25 de Abril. Cada geração admira ou odeia Soares à sua maneira. Mas todas elas estão em dívida para com ele. Particularmente, esta. A geração Europa. 

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publicado às 22:10



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