Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



OS MEUS DOIS EPISÓDIOS COM MÁRIO SOARES 

E O QUE MUDOU ENTRE ELES

 

15965576_991222540982046_2453454416386768193_n.jpg

 

Passado o tempo de frenética, merecida e esclarecedora, por vezes pedagógica, “inundação” televisiva/informativa sobre Mário Soares, partilho os dois episódios da minha vida em que me cruzei e troquei ideias com ele e aqueles, onde não tendo trocado ideias, tomei posição.


- Episódio 1: O dia em que Mário Soares não me quis no PS (1979/80)


No longínquo tempo de 1979/80, eu era um dos dirigentes da Associação de Estudantes da Universidade de Évora, da qual tenho honra de ser fundador.

As Direções onde participei eram uma autêntica saudável “geringonça” antecipada, com uma informal aliança de independentes de esquerda (como eu) e jovens do PS, PCP e UDP, por exemplo.

Mas resultava.

Os ditos “independentes” eram, como eu, frequentemente, “assediados” para se filiarem no PCP e, também, no PS.

Isso aconteceu comigo.

Surgiu, nessa altura, animado pelo professor universitário Dr. Alberto Teixeira Ribeiro, em Évora, um movimento de novas adesões ao PS, mas pelo “lado esquerdo”, em Évora, que, contudo, não foi bem visto pela estrutura distrital.

Lá decidimos preencher a ficha de adesão e entregá-la.

Eu fui um deles.

Até participei em reuniões e recebi um “cartão provisório”.

Mas tardava o “definitivo”, ou seja, não eramos ainda militantes de pleno direito.

Resolvemos, então, no verão de (julgo) 1980, deslocar-nos a Lisboa, à Rua da Emenda, onde o PS tinha instalações, com audiência marcada com o Dr. Mário Soares (Secretário Geral) e a Comissão de conflitos (Manuel Alegre).

O assunto era simples: queríamos dar contributos ao PS no Alentejo, pela Esquerda e não percebíamos porque tardava a nossa aprovação definitiva como militantes.

Eu fui um daqueles que expôs a questão, como “jovem universitário”.

Lembro-me de um Mário Soares sentado no sofá, vestido num impecável fato castanho e com meias brancas, que, sobranceiro, nos diz, taxativamente: “O PS não precisa de pessoas como vocês. Ou seja, esquerdistas”.

Eu saí imediatamente da sala.

Senti-me ofendido, porque eu era de esquerda, mas “esquerdismo” era insulto.

Eu até era dos meios católicos, ao tempo.

Sobretudo, zangado e desiludido com Mário Soares.


- Episódio 2 : Estremoz 2006 (Eleições Presidenciais)


Nessas eleições, votei Franscisco Louçã para as “presidenciais” e fiz campanha por ele.

Contudo, cruzo-me, com Soares, na Feira “Cozinha dos Ganhões”, em Estremoz, onde vivia, pouco antes do ato eleitoral.

Dois amigos comuns (a Helena Maria e José Alberto Fateixa quase me obrigaramm a ir cumprimentar Soares, e eu fui e disse-lhe que, na segunda volta (que não haveria, porque, afinal, deu “Cavaco” logo à primeira), não votaria nele, porque quem passaria à 2ª volta era Manuel Alegre.

Referi-lhe o primeiro episódio, de 1980 (é evidente que ele não se lembrava) e ele replicou que as decisões são boas ou más conforme o fim que atingem, e não em si mesmas.

Assim.

Saí a gostar dele.

 

Algo mudou entre esses dois momentos distantes.


Ouvi, há pouco, os discursos dos filhos de Soares nas cerimónias ditas “de Estado” e percebi muito do que intuía: como Fidel Castro, embora em configurações diferentes, Soares soube dizer, também, à sua maneira “A História dar-me-á razão”.

E deu-lhe.

E continua a dar.


Eu sou eleitor desde 1975 (primeiras eleições pós 25 de Abril) e, das 10 vezes, que Soares foi candidato ou cabeça de lista a qualquer coisa, só em duas votei nele.


Mas reconheço-lhe o perfil e prática, sábia, corajosa, consensual, de procura de equilíbrios sem perder de vista valores, que marcaram a “ginástica” política que teve de fazer e que é um tratado de gestão política com ética, com valores, que não à espera de favores.

Mesmo quando colocou o “socialismo na gaveta”, coisa que detestei.

 

Emociono-me, desde a madrugada de Domingo, com as fundamentais entrevistas a Mário Soares que não param de ser recordadas e emitidas, nos canais de TV. E ainda bem.


Numa delas, ele disse, recordando o exílio em França, que lia, ao tempo, nas paredes do “Quartier Latin” de Paris, “Sejamos realistas, exijamos o impossível”.

Soares dizia que era verdade e esse era o objetivo.

Mas aquilo que distinguia os socialistas da restante esquerda era saberem que que o impossível nunca se atingiria, mas, por ser uma meta, valia a pena irmos aproximando-nos cada vez mais dessa meta, mesmo se impossível e lutando por ela.

Porque a humanidade assim caminha.


Valeu a pena eu ter partilhado o tempo, desde 1974, com Soares, gostando e não gostando.
Aprendi muito .

Digo isto sem hipocrisia, preconceitos e muito menos interesses.
Fazer História, a saber que sabemos que a fazemos.

Como Mário Soares.

 

Até sempre, Camarada da Esquerda.

 

(Abel Ribeiro - 10-01-2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:48



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D