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Obrigado e desculpe, Mário Soares

por efepe, em 11.01.17

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Mário Soares deixou-nos e mais de meio país apressou-se a bater-lhe palmas e a dizer-lhe obrigado. Curioso: esse país grato não é o que a geração de 1974 sonhou e pela qual tanto se bateu. A política perdeu o encanto, o espírito de missão e a crença na construção de uma sociedade melhor. Portugal é hoje um país em sobressalto, com os fantasmas da dívida, da injustiça e da pobreza à solta. A Europa deixou de ser aquele lugar de sonho em que escreveríamos um novo capítulo após a perda da África. Mas, ainda assim, a grande maioria dos portugueses agradece a Mário Soares – porque sabe que nem ele nem a hoste dos democratas que inspiraram o 25 de Abril e ajudaram a derrotar as tentações totalitárias do Verão de 1975 são responsáveis pelo que aconteceu nas últimas décadas. Pelo contrário, Mário Soares é, como a maioria dos portugueses de hoje, vítima de um projecto traído pelos delírios da política nacional e pelos desvios da política europeia. Os que hoje lhe dizem obrigado deixam implícito um pedido de desculpas e o desejo de recuarem no tempo e voltarem a esse Portugal que um dia pôde sonhar.

A geração que tem hoje 40/50 anos não esteve à altura do legado do 25 de Abril. Falhou. Vai deixar aos filhos um país menos esperançoso. O adeus a Mário Soares serve para constatar essa dolorosa verdade. Repare-se que dizemos “obrigado” a Soares mais pelos seus primeiros 40 anos de percurso político do que pelos 30 anos que decorreram após a sua primeira presidência. É verdade que temos de agradecer ao Presidente Soares a onda “fixe” que libertou em vésperas da integração europeia. Mas o Soares presidente era já um homem de um tempo novo, um tempo de normalidade democrática que não quis ou não foi capaz de temperar. O lugar do sonho depressa foi ocupado por uma geração oca, deslumbrada com o novo-riquismo do dinheiro a crédito, sem densidade de vida nem de ideias, apenas ávida de facilitismo e propensa à cumplicidade venal com os amigos das negociatas.

 

Soares foi um homem de futuro até ao último dia, mas o que o país lhe deve radica nessa área do seu passado em que foi necessário lutar contra um regime mesquinho e desprezível que nos amordaçava e ensaiar um caminho em busca de um país aberto, moderno, europeu e cosmopolita. A sua grande luta entre 1975 e 1985 teve por base a firme convicção de que Portugal só seria capaz de sarar as feridas do fim do império e de varrer a pobreza material e moral do salazarismo se ancorasse o seu destino ao das democracias ocidentais. Hoje, essa missão pareceu fácil. Mas não foi. Fui duríssima. Lutar contra o poder da rua do PCP e da extrema-esquerda; minar o MFA por dentro; fazer comícios num clima de ameaça; apagar as dores de um país que, de súbito, encerrou um capítulo de cinco séculos de aventura colonial; resistir a uma comunicação social e a um aparelho de Estado infiltrado por inimigos políticos implacáveis; tudo isso exigiu exemplo e coragem.

 

Vencida essa batalha em Novembro de 1975 e consolidada a vitória nas primeiras legislativas de 1976, Soares empenha-se noutro combate que justifica o nosso “obrigado”: o combate da integração europeia. Uma vez mais, teve de se confrontar com o PCP, que, sendo um partido pouco dado à hipocrisia, fez questão de recordar estes dias “as profundas e conhecidas divergências” que manteve com o ex-Presidente. Soares fez tudo o que pôde para que o destino europeu se cumprisse. Até dois programas de ajustamento com o FMI. A Europa de hoje não é essa Europa confiante, generosa, crente na grandeza única de um projecto de paz e prosperidade que Soares conheceu. Mas, sendo uma Europa pior, é ainda a única referência que temos para poder saltar o muro da asfixia financeira, controlar o saudosismo salazarento, ou para nos protegermos contra os danos de uma elite política e financeira mais interessada no seu umbigo do que na sorte do país.

Com as presidências de Soares e as maiorias de Cavaco Silva, esse papel estava pronto e havia muitas possibilidades de lhe imprimir um projecto viável e esperançoso. Depois, veio a vertigem do betão de Cavaco, a modorra de Guterres, a fuga irresponsável e provinciana de Durão Barroso, o delírio daninho e opíparo de Sócrates, a ideologia corajosa, mas pacóvia, da redenção nacional pela via da austeridade de Passos Coelho e, finalmente, a suave melodia da sereia interpretada por António Costa que nos leva a ver o mundo como ele quer que seja visto.   

 

Agradecer a Soares pelo país que nos deixou é festejar a democracia sólida ou o Estado social eficaz. O país é hoje muito melhor, mas as suas injustiças, a dívida, o Estado capturado pelos interesses, a pobreza e o desemprego são a prova de que ficámos a meio caminho. Podíamos e devíamos ter andado mais. Dizer obrigado a Soares é um acto óbvio de reconhecimento pelo que nos deixou – a democracia liberal, o Estado social, a Europa. Mas pedir-lhe desculpa pelo muito que falhou não é apenas uma forma de homenagear essa geração extraordinária de portugueses da qual Soares foi o mais completo representante: é também uma manifestação da vontade de recuperar os seus ideais e a sua energia, ranger os dentes, saber resistir às dificuldades sem propaganda nem demagogia e olhar com coragem para o futuro. 

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publicado às 21:58



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