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Mário Soares. Aqui. Hoje.

por efepe, em 11.01.17

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Na voracidade da pressa e da instantaneidade com que hoje se assume a vida e se ajuíza o outro, a morte é o momento da afectuosidade que não se soube entregar em vida. Por isso, tentamos recuperar no infinito daquele momento o que nos faltou no finito da nossa relação.

Na morte e diante de personalidades marcantes, há quase uma “compita” laudatória, onde a unidade na diferença quase se transforma na unicidade compulsiva. Hoje, perante a morte, a sageza do silêncio sofrido e respeitador tem vindo a ser trucidada pela obrigatoriedade da palavra mil vezes repetida, pela sofreguidão de câmaras desordenadas e pela mistura sórdida da democratização da proximidade pelas redes sociais com o seu uso reles, odiento, bárbaro e ignorante.

 

Morreu Mário Soares. O momento do seu desaparecimento físico é tempo de grandeza da memória, de balanço da gratidão e de legado do exemplo. Nas 11 vezes em que se candidatou a funções políticas (deputado, primeiro-ministro, presidente da República e eurodeputado), só uma vez votei nele. Ou melhor duas, uma por via indirecta. Refiro-me às eleições de 1969 (tinha eu 18 anos) em que, no círculo de Aveiro, votei CDE, que seria CEUD se tivesse votado em Lisboa.

 

Não escrevo, pois, como seu seguidor político ou doutrinário. Antes o faço com total liberdade e o necessário distanciamento. Mas, com indestrutível sentimento de gratidão. A ele (embora não só) lhe devemos a lucidez da coragem e a coragem do confronto em nome dos mais virtuosos valores da política: democracia e liberdade. Lá estive na Fonte Luminosa, em 1975, no momento de viragem erradicando novas tentativas totalitárias, ouvindo um só homem, mas tão acompanhado.

 

Esta conversa ainda hoje me acompanha no celeiro decrescente da minha memória. Uma lição, ainda que por método paradoxal de anti-lição. Afinal, ali estava muito do que caracterizou Mário Soares na vida pública: estadista e não apenas político, mundividente sem fronteiras, com a exacta noção do importante que não se dissolve na pressão do urgente, intuitivo e instintivo, corajoso como expressão da sua plena ideia de liberdade, amante da vida e prenhe de vida. Sempre acompanhado de Maria de Jesus Barroso, uma grande Senhora, no que isso significa de integridade humana e ética.

 

“Aqui. Hoje”. Assim se intitula um poema de Jorge Luís Borges, que começa assim: “somos o esquecimento que seremos”. Começou agora o desafio da imortalidade de Mário Soares, para contrariar a “norma” do escritor argentino. Sobretudo com e para as novas gerações.

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publicado às 22:16



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