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Mario Soares

por efepe, em 10.01.17

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Em 1974, Soares perfez cinquenta anos.

Ou seja, passou mais tempo na oposição do que no poder.

Este facto é crucial para o entender.

 

Tinha, evidentemente, uma noção perfeita da "gravitas" que o poder confere e, quando bem aplicada, da autoridade que impõe e transmite.

Nele, estas coisas decorriam com a mesma naturalidade com que adormecia.

Porque muito cedo intuiu a importância da liberdade como "o maior dos bens".

 

Entrou para o PC, adolescente, com a mesma rapidez com que o abandonou no pós-guerra.

Nunca teve grande paciência política para os "companheiros de estrada" dos comunistas, quase toda a oposição "correcta" de quem era amigo, e separou águas.

A bissectriz foi traçada entre aquilo a que hoje chamamos democracia liberal e que, nos anos sessenta e setenta do século passado, era representado à Esquerda, na Europa, pela social-democracia, pelo "trabalhismo" ou pelo socialismo democrático.

 

A fundação do PS em 1973, na Alemanha, contra a opinião de alguns "fundadores" como Maria Barroso, afigurava-se um passo decisivo na afirmação internacional da sua "ideia de e para Portugal": democratizar, descolonizar e "europeizar" o país.

O reencontro violento com o PC em 1975, no PREC, permitiu-lhe federar e liderar o movimento popular e partidário pelas liberdades públicas, de novo em risco, agora pela mão das "vanguardas" ditas progressistas.

Nas suas palavras, "em Lisboa, em S. Tomé, em Paris, na Fonte Luminosa, lutei sempre para que os portugueses pudessem conviver em liberdade uns com os outros e para que todos se sentissem parte de Portugal".

 

Arcou com a impopularidade dos governos constitucionais a que presidiu, três, sem desfalecimentos ou concessões.

Meteu-nos na Europa contra a opinião das "melhores" cabeças de então da nossa economia que raramente percebiam o que se passava.

 

No último Governo, dito de "bloco central" com Mota Pinto, foi claro: "saber persistir", "ter a coragem de não mudar de rumo", "aguentar de pé".

 

Dessacralizou a Presidência da República, a que acedeu na campanha eleitoral mais memorável do regime, sem beliscar a dignidade inerente à chefia do Estado.

 

O radicalismo circunstancial dos últimos anos de vida não me interessa nada.

 

A coragem física e política de Mário Soares, por vezes levada a limites improváveis ou incompreensíveis, era exemplar.

Ensinou-me a "aceitar a diferença" e que não se deve "pretender "salvar" os homens contra a sua vontade expressa".

É muito.

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publicado às 00:10



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